Quando a fantasia entra na avenida, a engenharia sustenta o espetáculo

Brasília, 11 de fevereiro de 2026.

Quando a bateria esquenta, as luzes se refletem nos tecidos e milhares de corpos se movem em perfeita sintonia, o Carnaval revela muito mais do que brilho e ritmo. Enquanto o público vê plumas, paetês e cores vibrantes, a engenharia enxerga sistemas, cálculos e escolhas técnicas cuidadosamente planejadas. Por trás de cada fantasia que cruza a avenida, há um engenheiro que transformou criatividade em estrutura, arte em desempenho e espetáculo em segurança. É justamente essa harmonia entre imaginação e ciência que faz do Carnaval brasileiro não apenas o maior espetáculo da Terra, mas também uma verdadeira aula de engenharia em movimento.

Fantasia tecnológica da rainha de bateria da Rosas de Ouro, escola vencedora do Carnaval de São Paulo em 2025. Coberto de pedrarias, o figurino liberava aroma de flores e tinha luzes de LED que alternavam cores – Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

De acordo com o engenheiro têxtil Brenno Henrique, toda fantasia começa como um projeto técnico. “Uma estrutura têxtil é, na verdade, um sistema complexo; ela resulta da combinação técnica de diversas variáveis”. Antes mesmo de pensar em brilho ou plumas, entram em cena decisões fundamentais: será malha, tecido plano ou nãotecido (TNT)? Tela, sarja ou cetim? Cada escolha define como a fantasia vai se comportar no corpo do componente durante o desfile.

Para garantir mobilidade total, que é essencial para quem samba por mais de uma hora, a engenharia aposta em estruturas de malharia de alta performance. Elas permitem que o corpo se mova livremente, sem deformar a peça. Já quando o desafio é sustentar volumes, adereços e alegorias vestíveis, entram tecidos planos como Ripstop ou Oxford, conhecidos pela estabilidade e resistência à tração.

O equilíbrio entre força e conforto também passa pelas fibras. O poliéster entrega durabilidade, enquanto algodão e modal oferecem toque agradável à pele. E um detalhe quase invisível faz toda a diferença na avenida. “A introdução de elastano – muitas vezes em proporções pequenas, em torno de 3% – viabiliza bastante a recuperação elástica necessária para o dinamismo coreográfico da avenida”, comenta Brenno, que é subcoordenador do curso de Engenharia Têxtil na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O impacto visual das fantasias de Carnaval que hipnotiza o público nasce, muitas vezes, nos laboratórios. Processos de acabamento transformam tecidos comuns em superfícies dignas da Sapucaí – Foto: Freepik

Muito além da escolha estética, o papel da engenharia têxtil no ramo carnavalesco é traduzir as exigências do desfile em soluções técnicas precisas. “Cabe ao engenheiro têxtil calibrar parâmetros fundamentais como a torção e a densidade linear dos fios, a gramatura do tecido e a aplicação de acabamentos químicos funcionais, que incluem proteção UV, repelência à água e tecnologias de gerenciamento de umidade”, explica o professor que trabalha no emprego de nanotecnologia em materiais têxteis, com destaque para o desenvolvimento de tecidos funcionais, como os antimicrobianos e os que protegem a pele de raios ultravioleta (UV).

“A engenharia química também contribui de forma decisiva para o desenvolvimento de produtos com excelente desempenho e múltiplas funcionalidades”, frisa Catia Lange, doutora na área pela UFSC, com cerca de 20 anos de atuação em beneficiamento químico têxtil, desenvolvimento de produtos, tratamento de efluentes, além de controle e otimização de processos industriais. O trabalho do engenheiro químico no setor têxtil inclui, por exemplo, desenvolver corantes mais eficientes e estáveis ao longo tempo; otimizar em larga escala o consumo de água e energia; e propor soluções sustentáveis, como a reciclagem de tecidos e o uso de corantes naturais.

Engenheiro têxtil Brenno Henrique, engenheira química Catia Lange e engenheira têxtil Fernanda Steffens, professores do Departamento de Engenharia Têxtil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – Fotos: arquivo pessoal

Fantasia é engenharia em camadas

Uma fantasia de Carnaval não é uma peça única, mas um verdadeiro “sanduíche” de materiais: tecidos leves e pesados, estruturas internas, costuras, colagens e aplicações. Para que tudo funcione sem machucar, pesar ou rasgar, a integração dessas camadas precisa ser milimetricamente pensada.

A costura não é apenas acabamento; mas é elemento estrutural. Tecidos elásticos pedem pontos específicos para acompanhar o movimento. A escolha errada do equipamento ou da densidade de pontos pode gerar o temido “efeito serrilha”, quando a agulha fragiliza o tecido e provoca rasgos prematuros.

Quando a costura não dá conta, entram as colagens. Mas nem toda cola serve. “O princípio fundamental é a compatibilidade química entre o adesivo e o polímero da fibra”, salienta Brenno. Uma colagem mal planejada cria rigidez excessiva, zonas de atrito e até ferimentos. “Por isso, a engenharia têxtil seleciona polímeros adesivos que mantenham a memória elástica do tecido, garantindo que a fantasia se mova em harmonia com o corpo”, acrescenta o especialista.

Nessa lógica de camadas que precisam funcionar como um único organismo, a engenheira têxtil Fernanda Steffens ressalta que o segredo está no rigor técnico na fase de confecção. A realização de ensaios preliminares é crucial para identificar ajustes necessários na modelagem ou na aplicação de adereços, evitando recortes ou estruturas que possam comprometer o conforto do folião ou não entregar o efeito visual esperado na avenida. “É importante seguir à risca as informações da ficha técnica apresentadas pelos fornecedores, como a quantidade correta de pontos por centímetro na costura de uma malha ou a temperatura de fusão adequada para fixar adereços termocolantes”, alerta a doutora em engenharia têxtil pela Universidade do Minho, em Portugal, docente na UFSC e especialista em desenvolvimento de têxteis técnicos e inteligentes. Fernanda reforça que o controle de qualidade ao longo da manufatura é decisivo para eliminar não conformidades antes que as peças cheguem aos componentes, assegurando que a fantasia permaneça íntegra, segura e confortável durante todo o desfile.

O papel da engenharia no ramo carnavalesco é traduzir as exigências do desfile em soluções técnicas precisas – Foto: Freepik

Brilho, proteção e segurança: engenharia a serviço da folia

O impacto visual das fantasias que hipnotiza o público nasce, muitas vezes, nos laboratórios. Processos de acabamento, chamados de beneficiamento secundário e terciário, transformam tecidos comuns em superfícies dignas da Sapucaí. A calandragem, por exemplo, usa pressão e temperatura para achatar a superfície das fibras e, assim, cria aquele aspecto vitrificado que reflete a luz da avenida. Já os efeitos metálicos mais intensos surgem com metalização superficial ou aplicação de resinas poliméricas especiais. “Nesses casos, a engenharia têxtil deve garantir que o ligante, ou a ‘cola’ química que fixa o brilho, mantenha a flexibilidade necessária, evitando que o acabamento ‘quebre’ ou descasque com a movimentação constante do folião, o que comprometeria tanto a estética quanto a durabilidade da peça”, detalha Brenno Henrique.

Além da estética, entram em cena acabamentos funcionais. Tecidos respiráveis, de secagem rápida e com proteção UV já fazem parte do mercado e são aliados importantes para garantir o bem-estar do folião, seja no sambódromo, nos blocos de Carnaval ou nos cortejos de rua. “Para obter produtos de secagem rápida, a engenharia têxtil tem atuado no desenvolvimento de fibras muito finas, chamadas de microfibras e com seções transversais específicas, que favorecem a remoção do suor”, comenta Fernanda Steffens. A proteção UV integrada desponta como outro diferencial para eventos realizados ao ar livre durante o dia, ajudando a proteger a pele da radiação solar. Nesse contexto, as pesquisas na área de engenharia têxtil avançam continuamente para ampliar a durabilidade e a eficiência desses acabamentos, como relata a engenheira: “A proposta é que a propriedade obtida permaneça maior tempo possível no tecido, principalmente quando submetido a processos de lavagens”.

Segurança também é palavra-chave. Em um ambiente com fogos, luzes e instalações elétricas, o risco de incêndio é real. Por isso, a aplicação de retardantes de chama nos tecidos é vital, reduzindo drasticamente a propagação do fogo em caso de acidentes. Tudo isso com controle rigoroso de pH e substâncias químicas, para evitar que os tecidos e adereços causem alergias, dermatites ou migração de corantes para a pele.

Desfile da Beija-Flor de Nilópolis, campeã do Carnaval do Rio de Janeiro no ano passado. Em 2026, a escola de samba inova a produção ao confeccionar alguns elementos de fantasia em laboratório de indústria 4.0, com auxílio de impressora 3D. Após o Carnaval, essas peças poderão ser trituradas e transformadas em filamentos, tornando-se matéria-prima para novas peças e contribuindo para a economia circular – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Carnaval mais verde: engenharia e sustentabilidade

Depois que a última ala deixa a avenida, fica a pergunta: o que fazer com toneladas de materiais usados por poucas horas? Para Brenno, a engenharia têxtil tem papel estratégico na construção de um Carnaval mais sustentável, liderando a substituição de fibras sintéticas convencionais por polímeros biodegradáveis, bioplásticos e fibras recicladas, como o poliéster proveniente de garrafas PET. “Além da substituição de fibras, uma das soluções mais promissoras é o uso de biomateriais à base de micélio, aquela estrutura radicular dos fungos, que podem ser cultivados para mimetizar a textura e a resistência do couro, sendo totalmente orgânicos e compostáveis”, sugere.

A engenheira química Catia Lange amplia esse olhar ao pontuar que a sustentabilidade das fantasias deve ser pensada já na etapa de criação, com a análise de todo o ciclo de vida do produto. Segundo ela, avaliar previamente as possibilidades de reuso, reciclagem ou outras técnicas de pós-uso é primordial para reduzir os impactos ambientais. Nesse processo, o uso de fibras e acabamentos biodegradáveis ou recicláveis ganha protagonismo, embora a reciclagem de fantasias de Carnaval ainda represente um grande desafio devido à combinação de múltiplos materiais em uma única peça. “O cenário ideal é o reaproveitamento ou o reuso; quando isso não for possível, torna-se essencial a separação dos diferentes componentes da peça, permitindo que sejam reciclados individualmente”, afirma a professora da UFSC. Apesar de algumas fibras já permitirem reciclagem em larga escala, a presença de elastano, linhas, botões, paetês, penas e apliques dificulta tanto a reciclagem química quanto a mecânica. Por isso, Catia reforça que, para que uma fantasia seja de fato sustentável, ela precisa ser projetada desde a origem com foco em desmontagem, reaproveitamento e circularidade.

 

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Julianna Curado 
Equipe de Comunicação do Confea, em parceria com o Departamento de Engenharia Têxtil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e apoio da Assessoria de Comunicação da UFSC